quarta-feira, 15 de junho de 2016

Os ônus de ser (quase) filha única.

                Na verdade eu sou a terceira filha de quatro irmãos, a única menina. Meu irmão casado (melhor alcunha que posso lhe dar, afinal ele não é o mais velho e nem o mais novo, ele é o casado e o único irmão vivo que hoje eu tenho) é dez anos mais velho do que eu e com um temperamento tão diferente e tão comum com o meu que a gente, por muito tempo, se repeliu mais do que fomos irmãos.
                Acho que por essa diferença de idade e essa dificuldade de relacionamento eu sempre me senti mais sozinha que deveria, os meus pais sempre foram o melhor que puderam ser, mas é bem difícil ser pai, ser mãe, ainda mais tendo que cuidar de dois filhos especiais. É bem difícil ser irmão, é bem difícil ser irmã e muitas vezes você só vive conforme vai dando.
                Mas só que nem sempre dá, às vezes a gente só precisa ter uma pessoa pra recorrer, uma pessoa pra gente abraçar quando dói muito, mesmo que a gente não saiba porque dói. Às vezes a gente só quer alguém que não esteja com a gente por pena, por falta de opção melhor, que esteja com a gente porque é tão a gente quanto a gente mesmo. Muitas vezes eu só queria poder deitar a cabeça do colo de alguém que eu não duvidasse que ia estar ali pra mim fosse o que fosse, que eu não precisasse explicar nada, que soubesse da minha história sem eu precisasse contar, alguém que eu ligasse e dissesse “eu preciso de você” e ele chegaria em minutos ali. Alguém que tivesse orgulho de mim mesmo conhecendo todos os meus defeitos, alguém que segurasse meu rosto e dissesse “calma, a gente vai conseguir”.
                Eu amo a minha mãe, entenda, mas tem coisas que eu não quero contar pra ela, experiências que eu precisava partilhar com alguém que não fosse meus pais, mas que fosse mais que um amigo, perguntas que eu só poderia fazer para um irmão, segredos que eu só poderia confidenciar a ele, pecados que eu poderia só confessar aos olhos dele, sonhos que eu só confiaria a ele. Meu irmão não errou comigo, eu não errei com ele, a gente se amou da melhor maneira que poderíamos nos amar, mas só que pra mim não foi suficiente, talvez pra ele também não deva ter sido, mas eu consigo falar, talvez ele nunca diga.
                Tem coisas que se perdem no tempo e, desculpa Luna, mas algumas delas nunca voltam.
                Na Bíblia diz que “há amigos mais chegados que um irmão”, eu não divido disso, mas eu aprendi desde muito cedo que amor não se pede, não se obriga, é de mim ser a pessoa que está lá para os outros, a que recolhe as lágrimas, a que tem o abraço confortável, a que tenta tirar o sorriso, a que aconselha, mas eu não sei estar do outro lado, ou talvez eu nunca me deixei estar e nunca me deixarei estar, porque meu mundo às vezes é pesado demais e não tenho o direito de sobrecarregar mais ninguém.
                Talvez essa falta só me doa tanto, porque ela poderia literalmente não existir, porque eu não sou filha única, eu nunca fui, eu nunca vou ser, quando eu escuto minha mãe contar as histórias de como ele cuidou de mim, se preocupou e me amou é como beber remédio que envenena, porque é como se essa cura não existisse mais e só a dor aumentasse.
                Eu amo ele com tudo que eu tenho e sei que ele me ama também, a gente só nunca soube demonstrar, talvez eu tenha tantos abraços confortáveis pra dar, porque eu tinha três pessoas pra acalentar, mas eu não soube cuidar de nenhuma, porque eu não fui cuidada por nenhuma dessas pessoas. Eu sou muito feliz e orgulhosa da pessoa que ele é hoje, da família que ele tem, das suas conquistas, eu nunca demonstrei, mas eu tenho até mais orgulhoso do que eu suponho, ele não é mais sozinho e eu agradeço a minha cunhada e as minhas sobrinhas por darem a ele os abraços que eu nunca fui capaz.
                E infelizmente esse texto não é sobre perdão ou falta de amor, mas sobre filhos de uma história, a gente só viveu como deu, a gente só vai continuar vivendo como dá, talvez uma hora não dê mais de nenhum jeito. Talvez uma hora um dos lados nunca consiga deixar de ser sozinha e o peso seja grande demais, a dor seja insuportável, a cabeça não aguente e a vida não tenha mais sentido, talvez só precise ir aonde não se deseja que ninguém vai, mas ninguém vai ter culpa, uns corações são diferentes de outros, não é?
                Se um dia você chegar até aqui saiba que você é meu herói, que eu nunca fui melhor que você, eu só sou diferente, que eu tenho um puta medo de perder você, que eu sou uma pessoa toda errada, mas eu te amo muito. Sempre amei.

                Eu sou uma quase filha única, quase porquê não sou, quase porquê nunca serei, quase porquê meu coração e minha mente nunca foram racionais e precisavam mais que uma certidão pra não acreditarem na dor que ousava se fazer presente nos momentos que eu mais precisei não ser única.

Nenhum comentário:

Comentário