sábado, 23 de abril de 2016

seis anos.

                Minhas sobrinhas estavam em casa essa semana e num dado momento alguém perguntou para a mais velha quantos anos ela tem, pra mim não era surpresa, eu sei a idade das duas, mas na hora que ela respondeu eu me toquei que realmente ela tem seis anos.
                O “eu me toquei” foi mais que olhar pra ela e ver que já se passaram um pouco mais de seis anos que eu vi o rosto dela pela primeira vez, na verdade foi um “me tocar” por ter lembrado quem eu era com seis anos e do quanto nós duas temos vidas tão diferentes.
                Ela é uma menina magrinha, pequenininha e muito feminina, já eu na idade dela era grande, bem mais alta do que ela é hoje, já gordinha e aparentava ser mais velha, o que é engraçado, pois atualmente já passei por 17 anos, sendo que tenho 26.
                Mas as maiores diferenças entre nós duas não estão no físico que eu tinha e que hoje ela tem, mas no que a vida cobra dela hoje e o que ela me cobrou em 96/97.
                Ela tem um pai, uma mãe e uma irmã mais nova, a vida deles é confortável, ela estuda e só precisa ser criança.
                Em agosto de 96 além do meu pai, minha mãe, meu irmão (pai das minhas sobrinhas), eu tinha um irmão com necessidades especiais e doze anos mais velho que eu, meus avós maternos moravam na casa do fundo e um irmão seis anos mais novo que eu estava na barriga da minha mãe.

                Eu sempre fui gordinha, sempre fui inteligente, eu sempre precisei ser inteligente e ser agradável. Sempre fui mimada em casa, sempre falei alto, chorei quando quis as coisas, sempre tive que dividir a atenção da minha mãe que se abdicou de si mesma para cuidar da gente, e também a atenção do meu pai que sempre trabalhou em construção civil para nos sustentar.
                Nossa condição financeira não era ótima, mas não passamos fome. Meus pais fizeram mil e um equilíbrios para que o dinheiro fosse suficiente para as contas, a comida e os remédios do Darci. Era difícil para todo mundo, difícil diferente para cada um. Eu nunca vou poder falar pelos meus irmãos, eu não sou eles, não acho que tenho direito ou sabedoria para falar daquilo que não fui eu que senti, mas eu sei que não foi fácil para eles e nem para meus pais. E eu posso falar por mim e não foi fácil ser a única criança menina em casa, ser a prima que tinha um “irmão doente”, ser a menina com corpo diferente na rua, na escola, na vida...
                Em 27 de agosto de 1996 eu tinha seis anos e cinco meses.
                Nesse dia, uns dias depois de eu levar um tombo, pois estava andando de patins dentro de casa e ter ficado sem ar por uns minutos, a minha mãe, que passava por uma gravidez de risco por causa da idade, pressão, saiu de casa para uma consulta de pré-natal e entrou em trabalho de parto no meio do caminho – nós não tínhamos carro – e depois de uma cesárea complicada, meu irmão mais novo nasceu. Ele tinha microcefalia, ele precisava de cuidados maiores dentro de um hospital público, dentro de uma família que não estava pronta pra viver isso de novo, mas que fez o possível.
                Em 01 de agosto de 1997 eu tinha sete anos e quatro meses.
                Nesse dia minha prima me levou para passar à tarde na casa da minha amiga que morava duas casas ao lado da minha, de lá eu ouvi os gritos da minha mãe, de lá eu vi todos os vizinhos e familiares irem a minha casa, lá eu contei pra minha melhor amiga que meu irmão havia morrido.
                Naquele dia eu fui pela primeira vez ao cemitério “Parque das Flores”, eu não lembro muito daquele dia, não lembro se eu dormi lá, se eu chorei muito, se eu sabia o que era aquilo. Eu lembro que o caixão era bem pequeno e que ele usava a mesma roupa que usou no batizado dele.
                Dos onze meses que ele viveu nem dois a gente conviveu, ele passava muito mais tempo no hospital fazendo cirurgias, tomando soro, sendo alimento por mamadeiras, lutando contra a doença, contra as infecções hospitalares que ele contraiu, contra a pneumonia, contra a vida que queria que ele morresse.
                As fotos nunca deixaram que eu esquecesse o rosto dele, a culpa também não. Uma criança de seis anos é muito egoísta, uma criança de seis anos não se preocupa de andar de patins dentro de casa mesmo sabendo que a mãe não pode levar susto, uma criança de seis anos não sabe brincar com bebês tendo muito cuidado, uma criança de seis anos não sabe aceitar muito bem a mãe não estar mais em casa e que quando ela está o pai não, uma criança de seis anos não sabe aceitar muito bem que ela é diferente, que sua família é diferente... Talvez uma criança de seis anos saiba tudo isso, mas a criança de seis anos que eu era não sabia, a criança de seis anos que eu era carrega muita coisa até hoje.
                Com sete anos eu enterrei meu irmão mais novo, com quinze enterrei o mais velho, em 2002 e 2004 eu enterrei os pais da minha mãe, em 2000 e 2015 eu enterrei os pais do meu pai, eu 2013 eu quase me enterrei.
                A vida de ninguém é simples, nada na vida é simples... Eu não seria quem eu sou hoje se não tivesse sido a Viviane de 1996. Bem, eu não sei se isso é bom ou ruim, mas sei que é algo que não posso mudar, assim como não posso e não devo esquecer.

                Hoje, 2016, eu olho para minha sobrinha e rezo a Deus que ela seja uma menina forte, inteligente, que respeite a si e aos outros, que se ame muito, muito mesmo, que ame aos pais dela, a irmã, a vida e que não precise sofrer as mesmas coisas que sofri. Rezo para que quando ela com seus vinte e seis anos decidir olhar pra trás, veja que 2016 foi um ano bom e que ela sorriu muito, mesmo que hoje ela tenha um dente a menos.



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